Ajuda necessária para mais um dia

Quando a companhia do álcool torna-se necessária à vida, é preciso buscar uma luz à recuperação. Há 35 anos, o Alcoólicos Anônimos de Pelotas ajuda homens e mulheres que buscam frear a dependência e construir uma nova história.

O silêncio da sala, aos fundos da casa, é quebrado. Pernas cruzadas, olhos abertos, ouvidos atentos. A voz que se abre destila vida nas palavras, acolhidas pelos ouvintes como um tesouro. Nada é mais importante. O "Foi bom você ter vindo", exposto no quadro-negro reafirma o peso de cada presença no círculo de cadeiras. Oferecer mão a quem busca uma saída foi o motivo pelo qual o Alcoólicos Anônimos (AA) foi trazido a Pelotas em 23 de agosto de 1975. Hoje, 35 anos depois, a irmandade continua buscando a cada 24 horas uma oportunidade à renovação.

Crença
Assim que alguém entra no grupo, é iniciada a caminhada pelos 12 passos, uma espécie de mandamentos tradicionais da entidade que guiam a recuperação. Para V.D., o carro-chefe de todo o processo foi o primeiro passo, que refere-se à consciência do problema (veja o quadro dos 12 passos). Mas, conforme salienta, algumas das ideias não são familiares a ela,que arranjou sua própria maneira de encarar o "Poder Superior", descrito na tradição. "Dentro de mim faço a minha versão. O poder é do homem. Acredito no bem, no mal, e na sabedoria de distinguir um do outro. Lá todos têm a liberdade de pensar como quiser. E nas reuniões não me importo de fazer uma oração. A fé é bonita", diz a mãe de família, que define em uma palavra a base da vida que quer construir: "Serenidade".

Álcool como doença

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), o álcool tem relação de causa com mais de 60 tipos de doenças e lesões. No mundo inteiro, a estimativa é de que a bebida alcoólica motive cerca de 30% de problemas como câncer de esôfago, cirrose, epilepsia, homicídio e acidentes de trânsito. No total, conforme o levantamento, o álcool é apontado como a causa de cerca de 3,8% das mortes ocorridas no planeta.
Para chegar a um estágio elevado de alcoolismo, conforme o diretor técnico do Hospital Espírita de Pelotas, Luís Felipe Ustárroz, há uma série de fatores que levam o alcoolista- como o médico chama pacientes desses casos- a desenvolver a dependência. "O alcoolista não sabe por que bebe. É uma tendência compulsiva", explica, diferenciando: "Há os que bebem por fazer parte dele, da personalidade. Neste caso as motivações são mais precoces. Mas há, também, os casos em que beber é sintoma e outra doença". Conforme Ustarróz, entre os fatores que desencadeiam o alcoolismo podem estar aspectos hereditários e emocionais. "Os transtornos são desencadeados por uma multifatoriedade. Quando alguém chega aqui com o problema, avaliamos e, se necessário, fazemos uma internação. Mas internar é a última tentativa"diz, revelando que a maioria das internações são feitas mediante desvios de conduta do paciente, que se mostra agressivo, autodestrutivo e, por vezes, com tendência suicida. "Medicamos, desintoxicamos e buscamos as motivações da dependência", explica, ressaltando a importância de criar vínculos afetivos com o paciente para o sucesso do tratamento.

Internações
Conforme os registros do Hospital Espírita, em 2004 a Ala de Dependentes Químicos recebeu 434 internações por alcoolismo. Já em 2009, o total desse público foi de 239. Conforme o diretor, a decrescente se deve, em parte, ao fato de que hoje as pessoas dispõe de outras ferramentas de ajuda, antes de chegar ao caso de internação. "As alternativas foram surgindo com o tempo. Hoje há diversas. Daqui a alguns anos, quem sabe, também haverá diversas alternativas de tratamento ao crack", compara. Hoje, na Ala, de 58 pacientes, 28 são dependentes do álcool.

O caminho até a sobriedade
Na caminhada pela recuperação, seja física, espiritual ou psicológica, ruído são comuns. Tentações, como alguns chamam, fazem parte do desafio encarado. Conforme Ustarróz, o tratamento não segue uma crescente em linha reta: segue, sim, uma trilha suscetível a recaídas. É importante buscar a juda que beneficie o paciente da melhor forma- um processo particular de cada indivíduo. Para F.C., as reuniões do A.A. foram o melhor remédio para fortalecer contr a bebida. "Eu venho feliz pra cá. Nessa sala simples, a gente sente uma coisa muito maior."
Na explanação do experiente R.G., a sobriedade é exaltada como símbolo de felicidade."Sobriedade é equilíbrio emocional, é um estado de espírito. É te olhar no espelho e gostar do que vê", afirma. Na noite de quarta-feira, 25, na sala silenciosa do Grupo 20 de Outubro, quando os membros do A.A. recebiam de forma calorosa a reportagem do Diário Popular, F.C. finalizou seu depoimento resumindo o que todos ali, enfim, buscam: "Muitas 24 horas aos companheiros".

Os 12 Passos
1. Admitimos que éramos impotentes prante o álcool- que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas
2. Viemos a acreditar que um poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade
3. Decidimos entregar nossa vontade e nossas vidas à vontade de Deus, na forma em que O concebíamos
4. Fizemos minucioso destemido inventário moral de nós mesmos
5. Admitimos perante Deus, perante nós mesmo e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas
6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter
7. Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições
8. Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados
9. Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem
10. Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente
11. Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós e forças para realizaar esta vontade
12. Tendo experimentado em despertar espiritual, graçs a estes passos, procuramos transitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades

História dos Alcoólicos Anônimos
o A.A. iniciou em 1935, quando um corretor de Bolsas de Valores de Nova York, Will, e um médico-cirugião de Ohio, doutor Bob, resolveram ajudar pessoas que sofriam da mesma dependência que eles tinham. Após um período de desespero frente ao alcoolismo, eles fundaram a entidade. os primeiros grupos autônomos se espalharam pelos Estados Unidos e depois ao redor do mundo. Hoje, em 180 países, o A.A. possui cerca de 106 mil grupos e mais de dois milhões de membros. No Brasil, estima-se que existem cerca de 6 mil grupos.

Onde encontrar um A.A. em Pelotas?
Grupo São José: avenida Duque de Caxias, 516 bairro Fragata (anexo à Paróquia São José). Reuniões abertas (qualquer pessoa pode participar) nas quintas-feiras às 20h; fechadas (somente permitida a entrada dos membros do A.A), segundas às 20h.
Grupo Aparecida: na avenida Brasil, bairro Simões Lopes (anexo á Paróquia Nossa Senhora Aparecida). Reuniões abertas nas terças às 20h, fechadas, nas sextas às 20h.
Grupo da Luz: rua Anchieta, 3,553, Centro. Reuniões abertas, sábados às 20h: fechadas, terças e quintas às 20h.
Grupo 20 de Outubro: na rua Gonçalves Chaves, 3.229, Centro. O telefone é (53)3225-0373. Reuniões abertas, sextas, domingos e segundas às 20h; fechadas, terças, quartas, quintas e sábados às 20h.

Fonte: Jornal Diário Popular 23/o8/2010 PGS: 2 e 3
Reportagem: Amanda Santo

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