Fome é o termo utilizado em situações de insegurança alimentar crônica, onde as populações não têm acesso físico ou econômico a uma quantidade suficiente de alimentos nutritivos, seguros e culturalmente aceitos para atingir as necessidades dietéticas. O ex-ministro da Saúde de Gana Reggie Annan, do International Union of Nutritional Sciences, relembrou que o problema da fome está longe de ser superado.
No mundo todo, uma em cada dez crianças abaixo de cinco anos é subnutrida. Em todos os países pobres, 178 milhões ou quase um terço das crianças com menos de cinco anos estão abaixo da altura adequada para a idade, principal indicativo de desnutrição. Estão no continente africano 23 dos 40 países onde mais de 40% das crianças têm estatura inadequada. Na África subsaariana, muitos países têm mais de 35% da população subnutrida. “A África não está avançando. O financiamento externo dos países africanos gera uma superdependência e não uma solução sustentável”, afirmou o pesquisador. “No entanto, mesmo na África, a obesidade já se tornou um problema em vários países do continente”, alerta.
Reggie defendeu ainda que a ciência política faça parte da formação do nutricionista. “A capacitação e a formação de jovens líderes com energia e entusiasmo para a mudança é muito importante”, reforçou Reggie.
O ativista David Sanders, da Universidade de Western Cape, África do Sul, participou de vários simpósios e debates e criticou a comoditização dos alimentos (ver também Radis 113), cuja flutuação dos preços ao sabor dos mercados internacionais tem grande impacto na segurança alimentar dos países mais pobres, e a abordagem medicalizada da desnutrição pelas agências internacionais e ONGs de ajuda humanitária. Segundo ele, os RUTFs, sigla em inglês para alimentos terapêuticos prontos para o uso, usados para tratamento de desnutrição, são apresentados como “soluções mágicas”, e as questões comerciais e políticas são deixadas de lado.
Do outro lado da mesma moeda da questão alimentar estão o excesso e o desperdício. A pesquisadora Barbara Burlingame, em simpósio sobre a valorização dos sistemas alimentares tradicionais, lembrou que, na visão da sua instituição, a Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), o alimento consumido em quantidade maior que a necessária também representa desperdício, somado ao que é perdido durante o transporte e o armazenamento inadequados, ou jogado fora na ponta final da cadeia. Para ela, evitar todas as formas de desperdício é essencial. “Assim, não seriam necessários tantos hectares para o plantio e o aumento da população não seria uma preocupação tão grande”, afirmou.
Durante o debate O desenvolvimento econômico impulsiona a transição nutricional, foi traçado um panorama do duplo ônus dos países cujas economias vêm crescendo nos últimos anos. Sistemas alimentares tradicionais se encontram ameaçados e o problema da desnutrição convive com as doenças crônicas decorrentes da alimentação inadequada e hipercalórica. A representante do governo chinês Chunming Chen mostrou algumas das intervenções realizadas na China para reduzir o índice de crianças abaixo da altura para idade, de 40% na área urbana em 1990 para 5% em 2010. Nas áreas rurais, a situação ainda preocupa, com cerca de 20% das crianças com defasagem de crescimento. Ela anunciou um programa de merenda para os semi-internatos das áreas rurais, onde as crianças ficam cinco dias por semana, enquanto os pais trabalham, que careciam de alimentos regularmente. “A estratégia hoje é colocar a sobrevivência e a condição nutricional saudável e adequada acima de qualquer política”, declarou.
Brasil, caso típico
A mudança na alimentação do brasileiro foi mostrada na apresentação de Carlos Augusto Monteiro, do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP. Metade dos brasileiros está acima do peso, apontou o pesquisador, e 28% das calorias ingeridas vêm de alimentos ultraprocessados, índice que está aumentando. Nos Estados Unidos, já são dois terços das calorias. “O Brasil é exemplo de país em transição nutricional, e ainda há tempo de intervir”, declarou. “Estamos consumindo menos arroz, feijão, carne e leite, e mais alimentos ultraprocessados como pães industrializados, biscoitos, refrigerantes, doces, salsichas e refeições prontas. Esses alimentos perdem em valor nutricional, porque são produzidos de extratos dos alimentos, e também são mais pobres em fibras”.
“É mais barato adquirir alimentos gordurosos e açucarados. A carga de obesidade está se transferindo para os pobres. No mundo, a prevalência da obesidade é de três em cada quatro mulheres em países de renda média ou baixa”, declarou Barry Popkin, da University of North Carolina of Chapel Hill, EUA, acrescentando que existem mais dados sobre mulheres.
A obesidade e o sobrepeso no Brasil vêm crescendo regularmente desde 2006, em um ponto percentual por ano. Isso permite uma projeção de que em 13 anos vamos atingir o índice dos americanos. “Alimentação industrializada é parte do problema, e não da solução”, afirmou Luiz Augusto Facchini, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).
Impacto entre indígenas
A população indígena é uma das que sofreu maior impacto da transição nutricional nos últimos anos (Radis 97 e 98). Os trabalhos de pesquisa apresentados durante o debate Transição nutricional e alimentar em povos indígenas do Brasil e os desafios para a saúde revelaram que o consumo alimentar das tribos analisadas em todas as regiões do país se mostrou de baixo valor nutricional e com grandes níveis de carboidratos e gorduras — com excesso de sal, café, biscoitos doces e salgados, massas e refrigerantes. Na região do Mato Grosso, a pesquisadora Luciene de Souza (Ensp/Fiocruz) observou grande aumento do índice de diabetes e hipertensão nos xavante, doenças que antes não faziam parte da rotina dos índios. A mortalidade infantil por desnutrição, desidratação e pneumonia também foi considerada elevada.
Há muitos fatores que podem ser condicionantes dessa situação prejudicial de monotonia da dieta das populações indígenas, de acordo com a pesquisadora. As rápidas mudanças de estilo de vida das tribos, bem como as mudanças socioeconômicas e ambientais, fazem com que o consumo de alimentos industrializados seja maior. “A compra de alimentos em mercados é muito frequente em todas as regiões”, acrescentou outro debatedor, Andrey Cardoso (Ensp/Fiocruz). As estratégias tradicionais de subsistência acabaram dando lugar ao sedentarismo. “Muitos índios, quando realizam atividades de caça, pesca ou coleta em lugares distantes, usam automóveis”, observou Luciene.
Álcool e alimentação
O consumo de álcool e sua influência na condição nutricional mereceu um debate próprio no Congresso, pela dimensão global do problema. Vladimir Poznyak, da Organização Mundial da Saúde (OMS/Suíça), apresentou levantamento mostrando o impacto do álcool sobre a preferência alimentar: a ingestão de comidas gordurosas e com alta taxa de açúcar é aumentada e o baixíssimo valor nutricional dos alimentos pode desencadear até mesmo a desnutrição. “As mulheres jovens que consomem álcool são as mais atingidas pelo problema da má alimentação, além de se apresentarem mais suscetíveis a um comportamento sexual de risco”, observou.
A nutricionista Patrícia Jaime, coordenadora geral de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde lançou no evento, durante sua apresentação no simpósio O papel da nutrição na atenção primária em saúde, o programa Alimenta e Amamenta Brasil, fusão de programas anteriores de incentivo ao aleitamento materno e à transição equilibrada da alimentação das crianças menores de dois anos para alimentos sólidos. Na mesma mesa, Fábio Gomes, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), relembrou também que, com alimentação adequada, é possível reduzir diversos tipos de câncer com alta prevalência. O câncer é a primeira causa de mortes nos países desenvolvidos, e já é a segunda no Brasil. Ele se soma ao coro dos que defendem regulamentação mais restritiva para alimentos não saudáveis “A experiência do Brasil no controle do tabaco pode servir de modelo”, lembrou.
Fonte: Rev. Radis Comunicação e Saúde
Fonte: Rev. Radis Comunicação e Saúde


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